23/04/2012

INVENÇÃO CARIOCA

Texto publicado na edição impressa do jornal O Globo, coluna de Opinião, em 23/04/2012
O jogo do bicho surgiu no Rio de Janeiro em 1893. A criação da loteria popular mais famosa do Brasil se deve ao complicado contexto político daqueles tempos. A República, recentemente proclamada, tentava sepultar os resquícios da Monarquia derrubada – e desse quiproquó entre os adeptos dos regimes surgiu o jogo. Explico.

Nos tempos da Monarquia o Barão de Drummond, eminência política do Império e amigo da família real, era fundador e proprietário do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro – que então funcionava em Vila Isabel. A manutenção da bicharada era feita, evidentemente, com uma generosa subvenção mensal do governo, suficiente, diziam as línguas ferinas dos inimigos do Barão, para alimentar toda a fauna amazônica por pelo menos dez anos.

Quando a República foi proclamada, o velho Barão perdeu o prestígio que tinha. Perdeu, também, a mamata que lhe permitia, segundo o peculiar humor carioca, alimentar o elefante com caviar, dar champanhe francesa ao macaco e contratar manicure para o pavão. Sem o auxílio do governo, o nosso Barão cogitou, em protesto, soltar os bichos na Rua do Ouvidor - o que , admitamos, seria espetacular - e fechar em definitivo o zoológico do Rio.

Foi aí que um mexicano, Manuel Ismael Zevada, que morava no Rio e era fã do zoológico, sugeriu a criação de uma loteria que permitisse a manutenção do estabelecimento. O Barão ficou entusiasmado com a ideia. O frequentador que comprasse um ingresso de mil réis para o Zôo ganharia vinte mil réis se o animal desenhado no bilhete de entrada fosse o mesmo que seria exibido em um quadro horas depois. O Barão mandou pintar vinte e cinco animais e, a cada dia, um quadro subia com a imagem do bicho vitorioso.

Caríssimos, se bobear essa foi a ideia mais bem sucedida da história do Brasil. Multidões iam ao zoológico com a única finalidade de comprar os ingressos e aguardar o sorteio do fim de tarde. Em pouco tempo, o jogo do bicho tornou-se um hábito da cidade, como os passeios na Rua do Ouvidor, a parada no botequim, as regatas na Lagoa e o fim de semana em Paquetá. Coisa séria.

A República, que detestava o Barão, proibiu, depois de algum tempo, o jogo no zoológico. Era tarde demais. Popularizado, o jogo espalhou-se pelas ruas, com centenas de apontadores vendendo ao povo os bilhetes com animais dadivosos. Daí para tornar-se uma mania nacional, foi um pulo. O jogo do bicho deu samba – com trocadilho.

Contei rapidamente a  história da criação do jogo para constatar o seguinte: A situação atual do zoológico do Rio de Janeiro não parece ser muito diferente daqueles tempos bicudos do velho Barão de Drummond. Dia desses o próprio O Globo veio com uma reportagem chamando atenção para o desleixo a que o jardim está entregue em tempos recentes. Enquanto a loteria popular prosperou e virou uma espécie de instituição nacional, o zoológico não teve a mesma sorte.

O jogo, que a rigor foi criado apenas para tirar o zoológico da situação de abandono e com uma inocência digna das histórias de Polyana, a moça, chegou longe demais. Vejam, por exemplo, as atuais peripécias republicanas do bicheiro Carlinhos Cachoeira (curiosamente chamado por alguns da mídia de “empresário da contravenção”).  A inocente loteria popular ganhou asas e se transformou em uma complexa organização criminosa, com tentáculos inimagináveis que envolvem até mesmo cândidas vestais de ternos e togas do moralismo tupiniquim.

Deixo aqui a minha sugestão: Já que o poder público aparentemente não dá pelota para a bicharada, confisquem as fortunas que o crime organizado amealhou em aparente conluio com os bacanas e poderosos da República. Separem um pouquinho da grana tungada e, por justiça histórica, destinem o tutu ao carente Jardim Zoológico do Rio de Janeiro.  Uma parte do dinheiro do mafioso Cachoeira deve servir ao nobre destino de alimentar as cobras, leões, passarinhos e macacos que, afinal de contas, fazem a alegria da criançada carioca em fins de semana. A César o que é de César.

Ou alguém aí sugere a criação de uma loteriazinha inocente que pode salvar o zoológico carioca desse abandono? Não recomendo.

14/10/2009

NOVO ENDEREÇO

Esse blog continua falando das coisas brasileiras em novo endereço. É só clicar aqui: http://hisbrasileiras.blogspot.com/ .
Abraços!

09/10/2009

O BLOG FOI OLÓ

Caríssimos, esse espaço subiu no telhado. Explico - faz tempo que o Histórias está completamente enlouquecido. Sabe-se lá que diabos ocorreu, mas o fato é que o blogspot ficou completamente desfigurado. Os links dos blogs que leio simplesmente desapareceram e as postagens antigas passaram a aparecer apenas no final da página. Uma zona, enfim.
Como sou um sujeito que respeita os sinais, percebi que é hora de cantar pra subir. Já vinha matutando sobre isso. O Histórias do Brasil está oficialmente encerrado. Cumpriu o seu papel com dignidade, o pobre.
Mas continuarei - depois de matutar também sobre isso - na rede.
Abri um novo endereço e mudei um pouquinho o nome do espaço - o nome agora é Histórias Brasileiras e Festas de Encantaria. Quem quiser continuar acompanhando esse escriba, é só clicar aqui e atualizar o link . O novo blog vai ser, espero, menos frequente que o Histórias do Brasil. Muitos textos que escrevi aqui aparecerão lá, devidamente reescritos e, quem sabe, melhorados.
Deixarei esse blog no ar para quem quiser consultar alguma coisa.
Abraços

08/10/2009

PONTO FACULTATIVO E VILA 2010

Esse espaço acaba de decretar ponto facultativo até, pelo menos, acabar o turbilhão causado pelo adiamento do ENEM e que está me fazendo trabalhar pra burro. Faz parte.
Enquanto não retomo o ritmo, deixo com os amigos a gravação do hino que a Unidos de Vila Isabel apresentará na Sapucaí no carnaval de 2010, em homenagem ao centenário do gigante Noel Rosa. O samba, de Martinho da Vila, tem causado polêmica. Uns acham absolutamente genial, renovador, revolucionário e o escambau. Outros temem que, pelo perfil de samba clássico, possa afundar a escola.
Ouçam aqui o samba na voz do puxador oficial, Tinga, tirem suas conclusões e opinem. Apenas um pitaco - a bateria do mestre Átila vai pintar e bordar, como já está aprontando na gravação. E eu vou torcer pelo sucesso da Vila em 2010, sem a menor dúvida. É Martinho cantando Noel, caceta. Gosto cada vez mais! A letra é essa:

Se um dia na orgia me chamassem / Com saudades perguntassem / Por onde anda Noel? /Com toda minha fé responderia/ Vaga na noite e no dia/ Vive na terra e no céu/Seus sambas muito curti/ Com a cabeça ao léu/ Sua presença senti/ No ar de Vila Isabel/ Com o sedutor não bebi/ Nem fui com ele ao bordel/ Mas sei que está presente/ Com a gente nesse laurel/ Veio ao planeta com os auspícios de um cometa/ Naquele ano da revolta da chibata/A sua vida foi de notas musicais/Seus lindos sambas animavam carnavais/Brincava em blocos com boêmios e mulatas/ Subia morros sem preconceito sociais / Foi um grande chororô/Quando o gênio descansou/Todo o samba lamentou ô ô ô/ Que enorme dissabor/Foi-se o nosso professor/A Lindaura soluçou/ E a dama do cabaré não dançou/Fez a passagem pro espaço sideral/Mas está vivo neste nosso carnaval/Também presentes Cartola/Aracy e os Tangarás/Lamartine, Ismael, e outros mais/E a fantasia que se usa/Pra sambar com o menestrel/Tem a energia da nossa Vila Isabel.

Marcadores:

24/09/2009

SAMBA DE RODA PRA SÃO COSME


Sou devoto amoroso do Brasil e de seus encantamentos. Nesse ponto, e dou o braço a torcer, quem está certo é o velho compositor baiano - quem é ateu e viu milagres como eu... E nossos milagres, camará, são muitos, temperados por tambores e procissões; pela Virgem no andor, o caboclo na macaia e o preto velho no gongá.

Já escrevi em certa ocasião que somos os filhos do mais improvável dos casamentos, entre o meu compadre Exu e a Senhora Aparecida - a prova maior de que o amor funciona. E Tupã, que se vestiu com o cocar mais bonito para a ocasião, celebrou a cerimônia entre a cachaça e a água benta.

Uma das nossas mãos está calejada pelo contato com a corda santa do Círio de Nazaré - a outra tem os calos gerados pelo couro do atabaque que evoca as entidades. As mãos do Brasil e do seu povo.

Nossos ancestrais passeiam pela vastidão da praia sagrada dos índios de Morená, retornam à Aruanda nas noites de lua cheia, silenciam no Orum misterioso das almas e florescem encantados nas folhas da Jurema.

Os guerreiros de nossas tropas trazem a bandeira do Humaitá, o escudo de Ogum e o estandarte da pomba branca do Divino Espírito Santo - a mesma pomba que pousou na ponta do opaxorô de Obatalá. São essas as nossas divisas de guerra e paz; exércitos do Brasil.

E digo isso porque está chegando o dia de Cosme e Damião. Dia brasileiro dos santos estrangeiros e orixás africanos. Dia de igreja aberta, missa campal, terreiro batendo, criança buscando doce, amigos bebendo saudades e aconchegos. Dia de comer caruru na rua.

A tradição brasileira de Cosme e Damião é a mais festiva do mundo. O bom, nessas horas que antecedem as folganças dos santos gêmeos, é vadiar no clima da folia, tomando pinga e ouvindo umas cantigas bonitas sobre os protetores dos meninos, já que prometi colocar nesse espaço louvações aos médicos que não queriam dinheiro [leiam aqui ].

A hora, agora, é de bater samba de roda pra Dois-Dois, na palma da mão e no ponteio da tirana. Coloquei na rede a grande Mariene de Castro cantando para os meninos [ aqui ] as cantigas mais bonitas que conheço em homenagem aos gêmeos. É de comover pedra!

Quando ouço Mariene vadiar pros santinhos, tenho forte desconfiança de que ainda morro um dia de tanta belezura do Brasil - um amor que não se explica, feito cachaça da boa, jabuticaba, sorvete de cupuaçu, beira de rio, gol do meu time, cerveja gelada, mulher amada, amigos do peito e caruru de Cosme.

E que no dia de cantar pra subir, um samba de roda desses me carregue ao encontro dos meus pela Noite Grande.

A casa é sua, Dois-Dois !

Marcadores: , ,

DOIS-DOIS


É hora de ir entrando no clima da festa de Cosme e Damião - os santos médicos anargiros [inimigos do dinheiro, já que não cobravam as consultas] que foram martirizados em 27 de setembro de 287, durante a perseguição do Imperador Diocleciano aos cristãos.

No Brasil de todos os deuses e encantados, como não poderia deixar de ser, tudo terminou em macumba da boa - e Oxum virou a mãe dos gêmeos, sincretizados com Ibeiji - o orixá nagô que protege as crianças e cuida para que o tempo não amargue nossas vidas e preserve nossos afetos com saúde.

O encontro brasileiríssimo entre os santos católicos e Ibeiji começa a ser comemorado hoje nesse espaço - e o furdunço só termina domingo. Até chegar o dia 27, colocarei no Histórias canções que fazem referência aos meninos médicos, donos de todos os doces e carurus.

Para começar a entrar no ritmo da festa, ouçam aqui o grande João Nogueira cantando Dois Dois - mistura arretada de ijexá, ponto de macumba e samba; uma verdadeira oração de felicidade e proteção.

Dois-Dois é meu amigo leal e eu sem Dois-Dois não posso vadiar !

Saravá

Marcadores: , ,

23/09/2009

OS ALMOFADINHAS


O meu mano Eduardo Goldenberg escreveu em seu buteco virtual, dia desses, sobre um inusitado processo judicial em que foi réu [leiam o relato sobre o furdunço aqui ] . Assim que terminei de ler o texto do Edu, me recordei do concurso de bordados em almofadas que marcou o Brasil nos tempos do café-com-leite.

Corria o ano de 1919, meses após o final da Grande Guerra. Um concurso esquisito mobilizou a cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro: "rapazes elegantes e efeminados" se reuniram para definir quem era o melhor na arte de bordar e pintar almofadas trazidas da Europa especialmente para a ocasião.

Antes que alguém se ofenda com o efeminados do segundo parágrafo, aviso logo que a expressão não é minha - foi assim que o escritor R. Magalhães Jr. , um tremendo conhecedor das coisas daquele tempo e biógrafo de João do Rio, se referiu aos participantes do concurso.

R. Magalhães Jr. explica, inclusive, que esse certame deu origem à expressão almofadinha, para designar os tipos afetados, cheios de salamaleques e não-me-toques, nos tempos da República Velha. Outra versão diz que o termo deriva dos bancos de madeira dos bondes cariocas, que causavam transtornos aos bumbuns mais sensíveis e obrigavam seus donos a levar almofadas para se sentarem com o mínimo de conforto. Gosto das duas versões, assim como respeito a Minancora e a Hipoglós.

Voltemos ao campeonato de almofadinhas bordadas. A disputa entre os mancebos foi acirrada - há relatos de que dois concorrentes deram chiliques, tiveram queda de pressão e desmaiaram depois do anúncio do resultado. Meninas prendadas acompanhavam atentas o desempenho dos varões não tão assinalados.

Quem não gostou coisa nenhuma da contenda e dos faniquitos rapazolas foi Lima Barreto. O escritor vociferou contra os participantes do concurso em uma de suas crônicas mais famosas. Cito o grande Lima:

Foi à custa deste esforço e desta abnegação dos pais que esses petroniozinhos de agora obtiveram ócio para bordar vagabundamente almofadinhas em Petrópolis, ao lado de meninas deliqüescentes. Hércules caricatos ao lado de Onfales cloróticas e bobinhas.

Pausa para um esclarecimento das antigas. Já imagino, deste lado da tela, alguns leitores pensando o seguinte: que diabos é isso de Hércules caricatos e Onfales cloróticas? Explico rapidamente.

Diz a mitologia grega que Hércules, em um momento dos menos afortunados de sua trajetória de semideus, foi exilado na Ásia e condenado a viver três anos como escravo. Foi vendido à Rainha Onfales, viúva do Rei da Lídia, Tmolo.

Rolou, evidentemente, um clima de novela do Manoel Carlos entre a Rainha e o filho de Zeus e Alcmena. Onfales resolveu libertar Hércules. O fortão, entretanto, estava apaixonado e preferiu continuar escravo da soberana.

Onfales, que não era mole, pintou e bordou com o semideus. Para mostrar o poder da sedução feminina, se vestia de macho e ordenava que Hércules se vestisse de mulherzinha e ficasse aos seus pés fiando a lã no fuso e na roca.

É isso mesmo - o sujeito que desceu o cacete no terrível Leão de Neméia deu uma de travesti apaixonado, bordando toalhinhas aos pés da Rainha Onfales. Os gregos enxergam nesse mito uma metáfora poderosa do domínio da beleza sobre a força bruta.

Depois desse breve esclarecimento mitológico, volto ao mestre Lima Barreto e proponho rápida reflexão. Imaginem os senhores se as palavras de Lima sobre os bordadores de almofada tivessem sido escritas nos tempos atuais, marcados pela patrulha politicamente correta dos mariolas de plantão - era processo na hora. O autor do Policarpo Quaresma correria o risco de passar seus dias num manicômio judiciário.

Para terminar esse arrazoado, afirmo o seguinte: o imbróglio em que envolveram o Goldenberg e a lembrança do concurso de Petrópolis me fazem tomar impactante e definitiva decisão, em caráter irrevogável [apud Mercadante] - voltarei a utilizar o elegante termo almofadinha quando quiser adjetivar uns tipos que gostam de limpar cocô de galinha com colher de prata e andam se exibindo por aí.

Abraços

Marcadores: ,